As Eleições Legislativas de 27 deste mês vão determinar a escolha dos Deputados e a composição do Parlamento, daí decorrendo a fórmula político-partidária do próximo Governo e a identidade do Primeiro-Ministro. Os eleitores têm pois de ter em conta a personalidade de quem se candidata a cargo tão relevante, a fim de fazerem uma opção consciente e responsável.
O desempenho de José Sócrates como chefe do Governo está assim, sob julgamento. A apreciação que se segue aborda exclusivamente aspectos políticos da sua prestação e baseia-se em factos de conhecimento geral, embora obnubilados pela propaganda socialista, que na nossa Região tenta reduzir tudo a uma questão de apoios financeiros assegurados por via de cumplicidades e amiguismo, quando os interesses em causa são de âmbito nacional e vão muito para além disso.
José Sócrates fez uma entrada de leão, atacando tudo e todos sob a acusação de beneficiários de injustos privilégios, sem cuidar de saber qual o fundamento legal das situações criticadas e a responsabilidade de anteriores governos socialistas no estabelecimento delas. Disse-se nessa altura que ele pretendia recolher os cheques sem cobertura espalhados durante o período guterrista, no qual tinha tido aliás destacada participação.
Os Magistrados e os operadores da Justiça foram os primeiros a ficar debaixo de fogo, apresentados como malandros por supostamente gozarem dois meses de férias por ano. Ora a suspensão de alguns serviços dos tribunais em Agosto e Setembro apenas permitia tentar pôr em dia o esmagador serviço pendente, derivado da falta de meios humanos e materiais, que em parte explica os atrasos da Justiça em Portugal. Por isso a alteração feita não teve consequências práticas, traduzindo-se apenas no desprestígio de quem se esforça por fazer funcionar os tribunais.
Seguiram-se os Militares. Aí a acusação insinuada foi a de benefícios injustificados de diversa natureza, combatidos ao longo de todo o mandato socratiano, ao mesmo tempo que se procedia à redução das FAPs quase à dimensão do Batalhão Cerimonial do Luxemburgo… Ignorava-se ostensivamente a natureza peculiar da condição militar, que implica uma opção de vida envolvendo os próprios soldados e as suas famílias, à qual o Estado tem de corresponder com um estatuto profissional adequado.
Os Polícias e GNRs não escaparam à fúria reformista de JS, seguindo o mesmo percurso de denúncia de privilégios e revogação de benefícios anteriormente estabelecidos.
Para os Funcionários Públicos, José Sócrates não reservou parte significativa da sua torrencial facúndia, mas instruiu o departamento competente para rever todo o estatuto da função pública e as praxes em vigor - e foi um tal nivelar por baixo, nomeadamente em matéria de saúde, culminando no desmantelamento da Administração Pública como instituição do Estado, ao reduzir a generalidade dos seus trabalhadores à situação de contratados.
Especial tratamento de choque reservou José Sócrates para os Professores. Às atrabiliárias modificações das carreiras acresceu o enlouquecido processo das avaliações. Apresentados à execração popular como privilegiados, com férias abundantes e repartidas, com horários reduzidos e como recusando qualquer juízo de apreciação da qualidade do seu trabalho, os docentes portugueses dos vários graus de ensino viveram uma situação revoltante, que desestabilizou as escolas e perturbou o trabalho lectivo, prejudicando os alunos e as suas famílias. A imprensa denunciou actos persecutórios, intimidações, retaliações, processos por delito de opinião, tentativas de aliciamento com propósitos divisionistas, todo um pesado clima kafkiano, em cuja montagem se empenharam comissários políticos com comportamento de verdadeiros esbirros.
Os Sindicalistas também tiveram a sua dose. A participação sindical foi contrariada, dificultando-se a disponibilidade profissional dos dirigentes. Agentes policiais entraram pela porta dentro de sindicatos para inquirir sobre acções previstas de manifestação e legal protesto, como nunca se vira depois do 25 de Abril.
Os Trabalhadores em geral foram sobrecarregados com a revisão do Código Laboral, que agravou a insegurança das respectivas situações profissionais. Muito mais grave é, porém, a reforma socratiana da Segurança Social, que condena os futuros reformados a receberem pensões de valor rondando metade do seu último salário, com o argumento de que só assim ficam asseguradas as condições de viabilidade do sistema – quando nos tinha sido garantido por um anterior Governo socialista , no qual José Sócrates participou, que iria tudo muito bem pelo novo século dentro.
Os Comerciantes ficaram sob a férula da ASAE, uma nova polícia com poderes alargados, exercidos com zelo furibundo e com recurso a procedimentos de humilhação dos faltosos mediante a transmissão das operações perante as câmaras da televisão, como se tivessem regressado os tempos ominosos do baraço ao pescoço e do pelourinho na praça pública.
Os Contribuintes, que são afinal todos os cidadãos, viram-se submetidos a uma suspeita generalizada de evasão e de fraude fiscal e por isso a uma verdadeira devassa das suas vidas privadas, chegando ao ponto de festas de casamento serem perturbadas com celerados inquéritos sobre quem pagou o vestido da noiva ou se o fotógrafo tinha em dia a sua situação tributária… A pressão exercida sobre os funcionários atingiu o paroxismo, organizando-se até sessões de grupo, que incluíam a projecção privada de filmes como O Gladiador, para motivar psicologicamente as chefias para a cobrança desenfreada de receitas. Obrigados a alcançar objectivos arbitrariamente fixados para a obtenção de fundos, os funcionários do Fisco viram-se coagidos a agir sem dó nem piedade, desenterrando regras desconhecidas pelos contribuintes menos informados e aplicando-as com retroactividade, multando, penhorando, executando, enquanto pessoas e famílias ficam sem recursos e empresas são lançadas na falência, aumentando o desemprego.
Tudo isto aconteceu sob a constante invocação do equilíbrio das contas públicas, como se de um grande desígnio nacional se tratasse – e esquecendo a permanente sabotagem socialista aos esforços da Ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite norteados por idêntico propósito, quando a situação era objectivamente menos grave e por isso o remédio necessário menos amargo… E no entanto, ao fim de tantos sacrifícios, o País está pior, com mais de meio milhão de desempregados, o Governo absorve anualmente quase metade do produto nacional, o Tesouro está exangue e a dívida pública sobe na vertical, à razão de um milhão de euros por hora.
Quanto aos jornalistas, constituíram um caso à parte. Pressões directas, incluindo telefonemas de assessores de imagem e até de membros do Governo, misturando esclarecimentos com expressões interpretadas como ameaças, desqualificação pública de órgãos de comunicação social, operações de aquisição de media por empresas amigas do Governo, silenciamento de um programa noticioso particularmente incómodo por decisão administrativa de uma empresa espanhola – tudo isso de viu, com surpresa e indignação. Aqui não se tratou já de cortar despesas ou arranjar receitas mas sim de aplicar um bizarro conceito de liberdade de expressão respeitosa e talvez mesmo grata perante quem exerce o poder.
A crispação generalizada da sociedade portuguesa, a alienação dos jovens, o desinteresse traduzido na abstenção, a falta de esperança - eis os inquietantes resultados de quatro anos e meio de governação socratiana e do estilo pessoal do líder socialista e Primeiro-Ministro José Sócrates, aparentemente imbuído de um messianismo obsessivo, que estimula o seguidismo dos aúlicos mas não favorece a vitalidade das nossas instituições democráticas.
Os humilhados e ofendidos da governação socratiana devem ter isto presente no momento de votarem nas eleições que se aproximam. Acrescente-se que só o voto nas listas do PSD terá por efeito a substituição democrática do Primeiro- Ministro. Quaisquer outros votos, ideológicos ou de protesto, limitar-se-ão a manter José Sócrates em posto, piorando as condições para travar o descalabro e rasgar um melhor futuro para Portugal.